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Santas agulhas
cotrim@correioweb.com.br
Um belo dia — e era belo o dia —, saído de opíparo almoço, cruzei com um amigo que, ao ver-me, foi direto ao assunto: — Olha, não é para assustar, mas está na hora de cuidar desse barrigão.
Bem que eu sabia, só faltava o empurrão. Tomei o conselho ao pé da letra, fiz os exames. Verdadeiro desastre. Tudo em níveis absurdos, recordes de anormalidade. O médico, enquanto manuseava as fichas com os resultados, compassivamente ia dissertando sobre os perigos da vida sedentária. Mandou-me à balança. Ressabiado, subi. Noventa e cinco quilos, marcou um trêmulo ponteiro querendo ir ainda mais longe.
Desci, aniqüilado. Era urgente uma medida drástica. Comecei feroz regime, os exercícios físicos ficariam para quando eu chegasse ao peso ideal, a manutenção em minha nova rotina de vida.
· Meses de sofrimento. Não é fácil trocar massas e carnes macias e saborosas por pífias vagens, alfaces e brócolis. Depois de um semestre, o peso desabou. Era como se eu, antes, carregasse nas costas um saco de 20 quilos, sem descanso para sono ou refeições. Mais que um estivador do cais do porto, que faz o mesmo serviço mas tem sua folga. Eu, sem trégua, estivador 24 horas por dia!
Cumprida a primeira etapa, era manter o peso. Reeducar a alimentação e praticar exercícios. Parti para a corrida. Corri e não gostei. Tentei musculação. Matriculei-me numa academia, cheio de esperança.
· O ambiente impressionava. Corre-corre de instrutores atentíssimos, garotas de corpos monumentais, gente se arrebentando no alongamento, uivos de esforços e gritos de vitória, todo mundo exuberante e eu um dos únicos coroas naquele templo de educação física, em flagrante desajustamento etário.
Logo vieram dores nas juntas e fisgadas aqui e acolá. Sentindo-me um farrapo, decidi parar com a musculação e começar ginástica. Pratiquei em grupo, fiz individual, me dei mal. Em grupo, ainda há o estímulo da emulação, o professor conta alto enquanto todos botam os bofes pela boca. A individual, sem motivação, é ignóbil. O sujeito se esvai em flexões até cair para o lado, prostrado e sem esperança na vida.

Restava a caminhada. Constatei como é bom, natural, como produz os mesmos efeitos das alternativas anteriores, e com que dignidade! Toquei a andar. Tenho andado e andarei enquanto pernas tiver para andar, pelo resto da vida.
Minha caminhada matinal virou gostoso hábito. O percurso de 40 minutos diários é bafejado pela suave brisa da primeira hora da manhã sobre o Lago. Radinho no ouvido informa o que se passa neste mundo de insanos e dementes. Depois um bom chuveiro e ameno dia de trabalho — nada cansativo, pois quando se faz o que se gosta o trabalho é divertimento.
· Mas o peso voltou a subir. Um pouco por abuso, leniência e porque as tentações gastronômicas em Brasília se multiplicaram. Decidi, então, experimentar a acupuntura, levado por elogiosas referências sobre um simpático chinês de 26 anos chamado Liu Jianguang.
Dr. Liu fez rápida consulta, indagou o essencial e me encaminhou para uma sala ao lado. Lá aplicou-me agulhas no abdômen e no pescoço. As bichinhas assustam, são longas e muito ponteagudas. Mas não dói nada, e elas ainda inibem a apetência — ou seja, tiram a compulsão pela comida.
Dieta de 30 dias, mudada a cada semana, sem angústias ou sofrimento, graças ao efeito inibidor das agulhas. E exercícios respiratórios específicos em apoio ao processo, tudo baseado na milenar sabedoria chinesa. Ao final do mês, oito quilos tinham ido para o espaço.
Ex-obesos se esparramam na ante-sala do consultório. Fotografias deles traduzem os eficazes resultados do tratamento.
lMais uma batalha vencida, agora na ponta da agulha. Fica a lição de que o principal, mesmo, é cuidar da saúde se você quer ter uma boa vida livrando-se do peso que carrega no lombo, como o homem da Emulsão de Scott, lembra-se?
Não importa se correndo, esticando-se ou dobrando-se em abdominais. O que interessa é preservar seu tesouro maior, a saúde, que só se valoriza quando se perde. Desculpe o lugar comum, mas é a pura verdade. E fique sabendo que as santas agulhas resolvem e confirmam a verdade antiga: Ex Oriente lux — a luz vem do Oriente.
‘‘Se Deus realmente ajuda a quem cedo madruga, ninguém seria fuzilado, eletrocutado ou enforcado às cinco da manhã’’
Joel Silveira |
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